Helsingin keskustakirjasto Oodi – Biblioteca Central de Helsinque Oodi
Nas últimas décadas, o Sistema Educacional Finlandês passou a ser referenciado por muitos como o melhor do mundo, gerando fascínio internacional. Uma manifestação óbvia disso foi a ascensão do “Turismo PISA”, que também me despertou fascinação e curiosidade, levando-me a uma imersão pedagógica que me proporcionou várias descobertas e muitos aprendizados. A Finlândia liderou parte da primeira rodada de testes internacionais PISA da OCDE em 2001 e, nos anos subsequentes, delegações internacionais voaram cada vez mais para Helsinque, capital da Finlândia, para breves visitas destinadas a descobrir o segredo do sucesso da Finlândia.

A capital finlandesa nos inspira desde os seus espaços públicos e prédios retrofitados.
Educação pública, gratuita e universalizada da pré-escola à Universidade, absoluta valorização do Professor (e frisa-se: muito além do salário), igualdade e equidade como práticas que materializam uma inclusão possível, didáticas focadas em estimular a autonomia e o bem-estar dos estudantes, bem como a aprendizagem colaborativa e um currículo nacional que respeita os contextos das escolas e que permite às lideranças educacionais atuarem de maneira coerente com as necessidades educativas de cada comunidade escolar. Os simplistas dirão que não identificam novidades e que tudo isto são premissas conhecidas. Mas estas conquistas partem da construção de um Projeto de País que fez da Educação a sua estratégia mais bem construída, consolidada e respeitada, sobretudo, por todos os Finlandeses, para além de ciclos de governos ou de tendências educacionais. Eis o “segredo”.

Suomen Kuvalehti – painel interno da Otava Publishing Company Ltd, fundada em 1890.
No entanto, como em qualquer país do mundo, compreender as suas estruturas requer conhecer as longas trajetórias e as grandes mudanças sociais pelas quais aquele povo passou e que formaram a sua educação, mas que são desconsideradas nos debates internacionais devido à sua complexidade e, claro, construção por longos prazos. Estas trajetórias não são resumidas em slogans e nem estarão nos debates públicos internacionais. Quando eu me preparava para a Imersão Pedagógica e de Estudos na Finlândia, a Professora Ayla Patricia Huovi tinha grande cuidado em nos contextualizar a história do povo finlandês. Assim, nos alertava para sairmos do simplismo analítico e nos auxiliava na ampliação de perspectiva: precisávamos analisar como um sistema escolar abrangente se desenvolveu no que diz respeito às questões sociais e de justiça aos seus resultados – que podem ser medidos pelos resultados da aprendizagem e competências (como no PISA). Estes últimos, gatilhos do que estou chamando de “Turismo Pisa”, muitas vezes são traduzidos como “qualidade” na discussão pública internacional.

Kirjasto Bibliotek – Aalto University
Sem dúvidas que o Sistema Educacional Finlandês nos inspira e que o edubusiness em torno deste modelo é muito válido. A suave ironia do título não é para agredir; apenas refletir. Assim como tantos educadores, absorvi dicas metodológicas, modelos gerenciais eficientes para estabelecimentos escolares e registrei inúmeros insights acerca das repetidas e enfatizadas observações dos gestores educacionais finlandeses sobre priorizar o bem-estar do estudante e dos educadores. Mas, sobretudo, saí ainda mais convicta de que qualquer inspiração somente se valida se tivermos a coragem e a coerência de olharmos para o nosso contexto, nossas contradições, nossas fragilidades e os nossos resultados. E isto nos coloca diante de estruturas profundas e, assim como foi para os finlandeses, exigirá um Projeto de longo prazo.


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